Farrapeiras

As farrapeiras, umas mais velhas outras mais novas, proferiam o seu pregão: Farrapo velho! Farrapo velho! …
As farrapeiras eram quase só mulheres e praticamente todas oriundas de Baguim – Baguim é o nome de duas variedades de pêra: baguim-branco e baguim-preto ou vermelho – conforme diz a enciclopédia Lello.
As farrapeiras levavam à cabeça grandes cestos repletos de “objectos” os mais variados, que iam comprando nas casas de muitas pessoas, especialmente as mais necessitadas ou, até pelo caminho, aos catraios que para arranjarem uns tostões para comprarem rebuçados de “Vitória”, lhes vendiam todos os bocados de metais que arranjavam. O cobre era o mais valioso e por isso o mais bem pago. A mica branca também foi muito procurada pelas farrapeiras, na altura da Segunda Guerra Mundial, pois diziam que era utilizada na guerra.
O nome “farrapeira” não significava que só comprassem farrapos! Talvez a proverbial sabedoria popular se tivesse servido da expressão “velhos são os trapos” – ou farrapos – para baptizarem assim as pessoas que se dedicavam a esta actividade. Pelo contrário, o grosso da mercadoria era o papel velho, especialmente o de jornal. Também o ferro, cobre, latão farrapos claro, mica, livros e revistas e quaisquer objectos velhos e sem uso, quase sempre deteriorados, desde que de um qualquer metal. Afinal, de certo modo, teriam sido as percursoras do comércio de certas antiguidades!?
Não era raro verem-se posses procurarem objectos metálicos antigos nos armazéns de “farrapos” existentes na freguesia de Rio Tinto.
Um dos armazéns que adquiriam o que as farrapeiras lhes vendiam ou o que as pessoas lá levavam, situava-se na Venda Nova em frende ao edifício que serviu de casa da Câmara, quando Rio Tinto foi Concelho, conhecida pela casa do Cavadas.
Para pesarem a mercadoria as farrapeiras usavam uma balança que, consoante a inclinação que davam, diziam os compradores, “roubavam” os clientes. Afinal a balança era um dinamómetro; na extremidade inferior tinha um gancho para prender os artigos, na parte superior uma argola onde se introduzia o dedo polegar para suspender a balança. A mola, face ao peso, distendia-se, e um ponteiro sobre um mostrador informava-os do peso respectivo.

Outros tempos em que a necessidade levava a reutilizar e reaproveitar os materiais. Afinal os nossos avós também reciclavam!

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