Carlos Amaral (?-1919)

Mestre-escola, jornalista, diretor de jornais da localidade e político republicano. A sua morte está ligada a um momento histórico nacional.

Natural de Rio Tinto. Mário Marques diz que era de Medancelhe e não tem família.

Abel Tavares relembra a sua obra Recordando Passagens de Minha Vida, de 1946:

«Comecei a frequentar a escola de mestra Amaral, nesse tempo instalada numa dependência daquele enorme casarão, da D. Maria do Endireita, em Medancelhe.»

Por sua vez, este mesmo autor, na sua obra manuscrita intitulada Em Horas de Lazer, 1977, conta mais pormenores acerca deste nosso biografado:

«Do enorme casarão que habitavam D. Maria e seus familiares… Uma pequena parte esteve, por volta de 1917/18, alugada ao mestre-escola, Sr. Amaral, homem íntegro e bom com quem aprendi as primeiras letras… Naqueles tempos conturbados da primeira República, mestre Amaral, que professava ideias republicanas, a certa altura deixara de ser visto. Vítima de Trauliteiras – dizia-se – teria sido eliminado do número de vivos.»

Dirigiu o jornal A Peleja, cujo primeiro número saiu em 12.12.1910. O editor era António Ferreira dos Santos. Todavia, a partir do nº6, abril de 1911, aparece já outro editor.

Carlos Amaral abandonara esse jornal e foi fundar O Combate, do qual será também diretor e editor. Este tinha a redação em Medancelhe e o nº1 saiu a 16 de abril de 1911.

Quando ainda dirigia A Paleja, um colaborador, de pseudónimo Jom-Jom (João Elias),dedicou-lhe a seguinte quintilha:

General é o Amaral

Que comanda do quartel

A campanha do Jornal

Com o famoso arsenal

Mas de balas… de papel.

Como havia quem chamasse ”quartel” à casa dos “Endireitas”, esse jornal devia elaborar-se nessa dependência onde também funcionava a escola. Abel Tavares diz que era no primeiro andar.

Era um lutador, de fato. Do Combate, diz ser um «jornal criado para o combate dos homens, das coisas e dos fatos». E escreveu no editorial do primeiro número:

«A vida é o resultado duma luta constante e ai do ser que um só momento fraqueja no combate. Esse é fatalmente esmagado pelos outros, necessariamente subvertido no turbilhão que constitui a necessidade de viver dos outros seres».

Nesta monografia publicamos um texto deles – a descrição da romaria de S. Bento das Pêras no seu tempo.

Foi uma vítima das suas ideias politicas. Na monografia de Gondomar (III: 98) lê-se:

«Pela tenacidade da sua propaganda da empresa, foi preso pelas célebres “trauliteiros”, de negregada memória, em 1919 e metida nas prisões infetas do Aljube do Porto, onde saiu um dia, mártir dos suplícios que lhe foram infligidos, para o cemitério do Prado do Repouso».

Aquando da “Monarquia do Norte” (de. 19.01 a 13.02.1919). A que chamaram também “O Reino da Traulitânia”, reinou o terror no Porto, pois os monárquicos exerceram barbaras vinganças. Carlos Amaral foi um dos republicanos espancados no Éden-Teatro do Porto. Dizem que o levaram par o cemitério a ocultas da família.

Ora, procuramos em vão no Livro de Óbitos do Prado do Repouso, Porto, o assento de Carlos Amaral. Nada consta. Somos levados a concluir que ele foi enterrado como um cão, em qualquer buraco anónimo.

Abel Tavares disse-nos que não se recorda de nenhum familiar, pensa que vivia só, mas não tem a certeza. Conserva dele a lembrança de um bom professor e honesto, descrevendo-o fisicamente como alto e magro. Quando desapareceu, devia ser homem entre 40 e 50 anos.

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