Fundição dos Sinos

A Fundição de Sinos de Rio Tinto, localizada na rua Dr. Guilherme de Cirne, tem as suas raízes no século XIX. Na sua origem está a firma Rocha & C.ª, à qual se fazia publicidade já em 1889, mas que laborava numa situação semiclandestina.

Em 1896, foi formalizada a sua existência legal, existindo recibos de arrendamento de instalações na Rua do Heroísmo, no Porto. Quando o fundador faleceu, a viúva deu sociedade a Laurentino Costa, empregado da firma e homem da confiança do Sr. Rocha.

A partir de 1907, há documentos da empresa, que contêm referencias ao Sr. Costa, avô do Dr. Alberto Costa, um dos actuais proprietários e seu principal responsável. A instalação no local onde hoje funciona deu-se em 1947, mas a sua laboração na freguesia de Rio Tinto é anterior, tendo estado em frente da estação dos caminhos-de-ferro.

Tratando-se duma actividade artesanal, esta unidade transformadora manteve sempre um caris familiar. O máximo de trabalhadores que teve foi 15, numa altura em que em Portugal existiram uma 10 casas a fundir sinos. Actualmente no país só existem duas: uma em Braga e a Rio Tinto que, em 1995, tinha três trabalhadores com uma produção anual bruta de cerca de dez toneladas. Aspecto curioso é o facto das duas se encontrarem ligadas familiarmente. O fundador da de Braga era sobrinho do Sr. Laurentino Costa.

A produção de um sino, sendo totalmente artesanal, demora vinte e três dias e vinte e três noites. Mesmo quando os operários não estão presentes (de noite) o processo continua. É necessário ter o fogo acesso para secar os moldes e mantê-los quentes, com a temperatura adequada para que na altura do vazamento este se faça com êxito. As matérias-primas utilizadas são o cobre (75 a 77%) e o estanho (23 a 25%) fundidas num forno eléctrico alimentado a fuel com capacidade para 150 quilos. É muito importante a proporção em que os dois metais entram na composição da liga e não pode haver grandes oscilações. Este bronze campanil, rico em estanho, tem uma sonoridade própria. Segundo o Sr. Dr. Alberto Costa é possível a pessoas conhecedoras identificar, pelo som, o sino de Rio Tinto.

Tratando-se de uma actividade artesanal, tem técnicas muito próprias e com aspectos curiosos. Para que os moldes tenham a textura mais adequada à gravação das inscrições que ficam em relevo nos sinos, misturam-se à argila clara de ovos. A presença de mulheres durante o processo de vazamento do bronze no molde não é permitida.

A explicação que nos foi dada para a existência desta superstição foi a seguinte: Sendo o sino um objecto que se destina ao serviço do sagrado e tendo a mulher um pacto com o diabo, a sua presença poderia interferir negativamente no momento crucial da fundição. Esta tradição continua a ser respeitada, não vá o diabo tecê-las…

Produzem-se sinos de diversos tamanhos e pesos sendo as encomendas mais frequentes de unidades entre os 150 e 200 quilos para igrejas. Geralmente, as torres só têm dois e nalguns casos 3 sinos. Para formar um carrilhão, capaz de executar peças de música sacra, é necessário o mínimo de 5 sinos. Os sinos mais pequenos são utilizados em estabelecimentos de ensino, quintas, barcos…

Presentemente, o mercado nacional encontra-se passivamente dividido pelas duas fundições tendo cada uma a sua área geográfica de clientes, correspondendo a de Rio Tinto á grande Lisboa, Oeste, Beiras e Madeira; já os Açores compram em Braga e o Algarve em Espanha.

O historial do destino dos sinos aqui fundidos só é possível fazê-lo a partir de 1947, uma vez que até a esta data, por deficiente organização dos serviços administrativos, os documentos existentes são escassos. O maior sino feitoem Rio Tinto, com cerca de duas toneladas, foi para o Mosteiro de Grijó. Entre os sinos monumentais aqui fundidos podem-se referir: para a Sé da Guarda (dois) para o castelo de Palmela e para o Palácio da Penaem Sintra. Comonão podia deixar de ser, também foi feito nesta fundição, o carrilhão da Igreja Matriz de Rio Tinto, que com o seu 17 sinos é o quarto maior feito do pais e permite a execução de qualquer peça musical, tanto sacra como profana.

Esta actividade já conheceu melhores dias. O volume de vendas decaiu muito depois da independência das Colónias, dividido às dificuldades porque passaram as missões católicas desses territórios. Teve que se diminuir e, consequentemente, houve a redução de pessoal, ficando pelos 3 operários pessoais que são suficientes para corresponder á carteira de encomendas que se tem mantido estável nos últimos anos. Esta casa, alem de fazer sinos e tratar da sua instalação teve que se adaptar aos tempos modernos e também instala relógios e sistemas electrónicos computorizados para accionar os martelos.

Financeiramente a empresa tem uma situação sã, mas o mesmo não se pode dizer desta actividade tradicional. Como não tem aparecido jovens interessados em aprender o ofício e os 3 operários já são de uma certa idade, ainda não esta assegurada uma renovação de gerações que garanta a sua continuidade. Se esta arte centenária na freguesia desaparecer, por certo que se perderá um aspecto muito importante no património e ficará mais pobre.

Uma visita à Fundição de Sinos de Rio Tinto constituiu uma autêntica viagem no tempo, dado a toda a ambiência de oficina medieval bem patente nas ferramentas, matérias-primas e processos de fabrico utilizados, No entanto, desiluda-se quem espere, numas horas de visita, ver “fazer” um sino.

Desde o início da feitura do molde até ao acabamento final, são assim necessários vários dias, para que com paciência, perícia e arte “nasça” uma “obra-prima”.

Pena é que os nossos políticos não tenham capacidade de ver longe e perceber que se trata de um recurso importante para o território, que merece ser preservado. E lá por se tratar de uma propriedade privada – neste caso os proprietários até teriam gosto em manter a fundição – está em causa um património único que devia dignificar a nossa cidade, transformando-se num museu, preservando a memória do que foi e a capacidade de poder fundir um sino tal como se fazia no passado.

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