O Pião das NIcas

Já alguém ouviu dizer: “aquele, ou aquela, e um autêntico pião das nicas “?

Pois ainda há quem se sirva desta frase ao referir-se a alguém a quem todos atiram remoques, a quem tudo de mau acontece, a quem se submete a todas as prepotências, em suma, aquém se comporta como o ”bombo da festa”.

Como tudo tem uma explicação, é caso para perguntar: qual será a origem de tal expressão?

Atrevo-me a sugerir-lhes mesmo sem saber desde que época há – havia! – jogo do pião – que me acompanhem, sem enfado nesta digressão através do passado; dum passado que remonta a minha própria infância.

Naquele tempo a catraiada, entre outros jogos, jogava o pião – era assim que se dizia, e não como alguns dizem”jogar ao pião”, mesmo no meio das ruas a maior parte delas de terra batida excetuando algumas como a estrada nacional que por ali perto passasse.

E jogava-se ”a papéis de vitória” – até ao dia em que a Fábrica Vitória fechou por insalubridade, logo após o 25 de Abril de 1974 – convenientemente “arquivados” dentro de umas capas de papelão, e até de pau, devidamente recortadas ao tamanho dos referidos papéis de Vitória, seguros por um alfinete de bebé, postos em ordem de numeração, fossem eles de animais ou de reis; jogava-se a botões, que também tinha um jogo próprio com a pincha.                          

A verdade é que, quase sempre se jogava o pião pelo jogo do pião e, ora se faziam todas as habilidades possíveis e imaginárias com o dito, como, por exemplo, ver quem acertava no pataco, ver quem acertava no pião daquele que, por sorteio jogava primeiro, ver quem conseguia faze-lo rodopiar mais tempo, ver quem era capaz de aparar o pião à unha, daqui está outra expressão “aparar o pião”, que se usa no sentido genérico de ter pachorra, paciência, bonomia, … para aturar alguém, nas costas da mão e, até, só com um dedo polegar.

Para quem não sabe o pião joga-se enrolando-o numa faniqueira e, depois, lançando-o ao solo. Há duas maneiras de o jogar: à menina e rapaz. Jogar o pião “à “menina” consiste, mais ou menos, nisto: atira-se o braço para a frente, lançando o pião ou a piasca – que é um pião mais pequeno- ao mesmo tempo que se puxa a faniqueira para trás, pois a ponta desta fica sempre enrolada no dedo indicador da jogadora. Quanto ao jogo à “rapaz” joga-se o pião com mais força, levantando o braço acima da cabeça e lançando o pião, com a maior violência possível ao solo, ao mesmo tempo se procura fazer desenrolar a faniqueira que o envolve. É claro que, esta descrição, é um arremendo de explicação; só vendo e, sobretudo, jogando, é que se fica com ideia exata.

Quanto à expressão “pião das nicas” e que, no jogo do pião consistia no seguinte: como havia “castigos” para quem perde-se ao jogo determinava-se, previamente, o número de nicas, picadelas, sulcos dados com o bico do pião, a dar no pião daquele que perdia, pelo ganhador. É bom de ver que o instrumento do jogo não ficava com muita boa aparência, antes bem cheiinho de picadelas tanto mais profundas quanto mais “chicha” – bocados de madeira – se conseguia tirar ao desgraçado… pião! Com que raiva a miudagem batia! Era por causa dos estragos que se faziam os piões que se arranjava para este efeito, um pião mais velho ou até já fora de uso para o submeter às valentes “coças” ou cacetadas com o bico do pião agressor, preservando os piões jogadores. Isto é, havia piões que se usavam para sofrer consequências; daí o pião das nicas!

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