Igreja Matriz de Rio Tinto

A Igreja tal como a conhecemos hoje é resultado de uma antiga Igreja de um só nave, sujeita a várias remodelações, uma em 1931/35 e outra iniciada em 1996. Valorizando-a, estas remodelações não alteraram substancialmente o núcleo e o estilo anteriores.

As obras de 1931/35 alteraram-lhe a fachada. Com as duas torres, ficou com um ar mais imponente. Foi, ao mesmo tempo, ampliado o alçado Sul, aumentado o número de altares e modificada a abóbada de madeira, que passou a ser de estuque caiado a branco.

Erguida sobranceira ao vale onde corre o Rio Tinto, vista do antigo mercado-feira, ou da atual estação do Metro designada “Levada” a igreja domina o vale e é particularmente bonita a sua visão ao pôr-do-sol e nos dias de festa com a fachada iluminada.

A fachada principal é revestida a azulejos brancos, com motivos geométricos e florais, azuis. Este revestimento prolonga-se lateralmente nas duas torres sineiras.

A porta principal é encimada por um frontão triangular de granito. Por cima deste, um enorme janelão como que prolonga a porta até ao frontão superior. Este janelão é cortado por uma cruz também de granito. Ladeando a enorme janela estão emolduradas em azulejos as imagens de S. Cristóvão, padroeiro de Rio Tinto e S. Bento, que aqui muito se venera.

Entre o corpo principal da fachada e as torres sineiras correm duas largas pilastras de granito de alto a baixo, criando a ilusão de uma fachada tripartida. Na parede das torres sineiras e fazendo parceria com as imagens de S. Cristóvão e S. Bento, estão, de um lado a imagem de Nª Sª do Rosário de Fátima e de outro a de Santo António de Lisboa. No lado Sul da torre sineira, a imagem de Santa Mafalda com a inscrição: “Filha de D. Sancho I, rei de Portugal, falecida no extinto convento das religiosas de S. Bento de Rio Tinto a 1 de Maio de 1256”.

Santa Mafalda surge-nos vestida de monja, com uma coroa de rainha. Por fundo, um mosteiro idealizado como construção românica que, provavelmente, nunca terá existido com tal aparência, aqui, em Rio Tinto.

No mesmo painel surge a assinatura do autor (A. Moutinho), a indicação da fábrica (Fábrica do Carvalhinho) e a data (1937).

Voltando à frontaria da igreja, a horizontalidade desta é cortada pelas duas torres sineiras que alteiam a fachada, ladeando um frontão de azulejos, representando anjos que prestam homenagem ao Cordeiro Pascal. A rematar as duas torres há uma pequena cúpula ogival que termina em duas cruzes de ferro forjado assentes em esferas que, por sua vez, nascem de um belo trabalho de folhagem coríntia, em granito.

A ladear as pequenas cúpulas estão quatro fogaréus, um em cada vértice da base quadrada em que aquelas assentam.

O carrilhão foi executado na Fundição de Sinos de Rio Tinto, uma das mais antigas de Portugal. Tem 17 sinos que pesam quatro toneladas. Estes sinos foram transportados para a Igreja em 18 carros de bois, que incorporaram um belo cortejo, no dia 25 de Maio de 1947.

À volta da igreja estende-se o adro murado. Na fachada Norte, depois da porta lateral, que é rematada por um pequeno frontão de volutas simples, há a Casa dos Milagres de S. Bento das Peras e a entrada para a sacristia.

Este acrescento prolonga a igreja lateralmente, criando um recanto, tipo varanda, sob o qual se encontra a inscrição gravada na pedra e que remontará provavelmente à data das grandes remodelações do século XVIII.

Na fachada nascente, extremamente simples, é nítido o telhado de duas águas. A rematá-lo uma cruz de granito e dois pináculos laterais: um azulejo evoca a antiga frontaria de uma só torre e com o imponente escadório que se prolongava em quatro patamares até à fonte.

Em cada patamar, segundo testemunhos da época, havia laranjeiras, que perfumavam e coloriam o conjunto.

A fachada Sul é a mais genuína. São nítidos os três corpos da igreja: o da frontaria com as torres, o do corpo principal com três janelões, estando um deles sobre a porta lateral, igual à de outra fachada e o corpo mais baixo da capela-mor com duas janelas. A marcar exteriormente o arco cruzeiro há uma cruz de granito semelhante à que encima a fachada principal.

Neste lado Sul, está uma cripta com a capacidade de 400 lugares sentados, dispostos em 26 filas de bancos, separados por um corredor central. A cripta foi construída de glorificar a figura de Nª Senhora.

Em frente à fachada principal, há dois lanços de escadas que se prolongam até à estrada; do lado Sul, no largo exterior ao adro, um moderno arranjo urbanístico com uma fonte e pequeno anfiteatro tornam este local bastante aprazível.

A igreja, exteriormente, tem cerca de 43m de comprimento e 11m de largura; a fachada poente mede cerca de 18m e a fachada nascente cerca de 10m.

O interior é de uma só nave, coberta de abóbada revestida a cal branca. Nas paredes laterias corre até ao arco cruzeiro um friso de azulejos.

Olhando a igreja da entrada principal destaca-se o belo altar-mor de talha dourada e o arco cruzeiro. Numa região de grandes tradições de entalhadores e douradores não é de admirar a maestria do trabalho de talha dourada deste retábulo.

Ao centro, o sacrário com uma particularidade que o torna pouco vulgar: a porta tem por base uma placa giratória onde se encontram curiosas portas falsas, sendo só uma delas a que dá acesso ao Santíssimo. O sacrário é encimado pelo Agnus Dei. Para tornar mais imponente o altar-mor este tem um trono do Santíssimo com quatro andares no cimo dos quais assenta uma cruz com resplendor. Ornado de graciosas cabeças de anjos (um painel que, presentemente, apenas é descido na época da Quaresma, encobria antigamente este torno). Remata o arco, que emoldura o trono, um dossel com franjas sobre o qual um anjo parece comtemplar o conjunto. Ladeando o corpo central do altar e num plano intermédio entre o torno e o sacrário há dois nichos com S. Cristóvão (do lado do Evangelho) e Santo António (do lado da Epístola).

Há ainda figuras pequeninas extremamente curiosas na sua singeleza e que passam despercebidas diante da quantidade de elementos decorativos que o altar possui.

São as figuras dos quatro evangelistas, que se situam na linha de base do sacrário. Destacam-se ainda duas figuras pousadas nos colunelos que ladeiam o arco principal. Na capela mor são de mencionar: dois grandes anjos com vestes cheias de movimento, típicos do Barroco. Estes devem corresponder aos “anjos estofados” da descrição do século XVIII, há ainda os cadeirais laterais em madeira – as costas dos cadeirais são rematadas pela mitra da regra benedita e entre cada cadeira a Cruz de Cristo.

A mesa do altar mor que já se adequava à moderna liturgia e se enquadrava no espírito oitocentista da igreja foi, nas obras de remodelação, substituída por uma de mármore branco, tendo uma fina cruz de granito rosa polido que corta vertical e horizontalmente o pano frontal desta mesa altar.

O ambão do Evangelho é um bloco de mármore igualmente branco com uma cruz de metal na face frontal tendo lateralmente um friso de granito rosa igual ao do altar.

É de referir ainda uma credência para apoio das alfaias do culto. Chegados ao arco cruzeiro observamos o dossel de talha, tendo ao centro um medalhão rematado por uma coroa.

Neste medalhão, vê-se o símbolo heráldico dos beneditos.

A ladear o arco cruzeiro estão dois altares. Do lado do Evangelho (lado esquerdo de quem entra), o da Santíssima Trindade e no nicho inferior uma graciosa imagem de Nossa Senhora da Conceição, no lado da Epístola (à direita de quem entra) é o altar de Nossa Senhora do Rosário, no nicho inferior a imagem do menino Jesus de Praga.

Estes dois altares são encimados por dois dosséis de talha dourada. Uma observação mais atenta ressaltará, na parte inferior dos dosséis, singelas e belas figuras pintadas sobre madeira. No da Santíssima Trindade uma pomba, ladeada por dois anjos, no outro altar, uma Nossa Senhora do Rosário e de novo, anjos. É uma pintura bem ingénua, bem “naif”.

Continuando a descer a nave e começando sempre do lado do Evangelho, temos: o rico altar das Almas – é um altar imponente e de soberbos pormenores de talha dourada e pintura. Ao alto, um frontão várias vezes interrompido, ao centro, a imagem de São Miguel Arcanjo. Sob o arco, um pequeno dossel, dois anjos triunfais e ao centro a Santíssima Trindade e o painel das almas. No nicho inferior, mesmo sobre a mesa do altar, outra imagem de Santo António, expressiva e fora do vulgar.

Em frente a este altar e com ele fazendo parceria na imponência, o altar de Nossa Senhora das Dores e do Senhor Morto. Por baixo da mesa do altar, o esquife do Senhor Morto. Ao centro, por cima do nicho da imagem central há um pequeno nicho com uma imagem de Nossa Senhora de Agosto e Nossa Senhora da Assunção, ou ainda Nossa Senhora da Glória, como é designada por muitos devotos em Rio Tinto.

No lado oposto, ao altar das Almas está o púlpito de granito com talha dourada e pintura.

Frente ao púlpito, fica o altar de São Bento. É um altar de uma beleza em que se conjuga a riqueza do pormenor da igreja pós tridentina e o equilíbrio estético. Na decoração, predominam os motivos vegetais, destacando-se as uvas, as parras e aves fantásticas. As uvas enrolam-se em colunas salomónicos, que são rematadas por capitéis coríntios. Ao centro, a Curiosa imagem de S. Bento. Curiosa porquê? S. Bento, fundador da Ordem Beneditina, tinha a categoria canónica de abade. Ora, sendo abade, por ser superior de abadia, podia usar báculo, mas as suas vestes seriam sempre negras, como todos os frades da mesma Ordem. É esta a imagem característica de S. Bento.

Mas perde-se no tempo a tradição de quem, em Rio Tinto, se lembrou de conferir a S. Bento a “categoria” de bispo e de lhe vestir as roupagens condizentes, bem como a colocação da mitra. É o chamado abade mitrado. Dado que a imagem não foi criada para ser vestida desta forma, fica um S. Bento um pouco desproporcionado, mas, segundo Pároco, reverendo Padre Vidinha, ninguém, agora, se atreve a tirar vestes episcopais, que não lhe pertencem, ao Venerável S. Bento.

No próprio azulejo da frontaria, aparece S. Bento vestido á semelhança da imagem do altar.

Reparando bem na imagem, que está no nicho, pode-se observar que, sob as vestes episcopais, se vêem as mangas negras do hábito beneditino. Durante as obras realizadas em 1996, S. Bento apresentou-se na singeleza do seu hábito. Posteriormente voltaram a vesti-lo…

É no dia 11 de Julho que se realizam as grandes festividades em sua honra. Este é o dia que comemora a sua translação para Monte Cassino em 693. (Nasceu em Múrcia em 486 e faleceu em 547).

S. Bento não é o patrono da paróquia de Rio Tinto mas é em sua honra que se realizam as grandes festividades. E porque motivo? É que antes da instalação do mosteiro de Rio Tinto (séc. XI) já existia paróquia com o oculto a S. Cristóvão. Manteve-se o padroeiro mas por influência da comunidade monástica deu-se grande relevo a S. Bento. E, qual a razão da designação S. Bento das pêras? Segundo o Prof. Dr. Frei Geraldo (monge beneditino do mosteiro de S. Bento da Vitória e ilustre professor de F.L. do Porto), “pêras” é uma transformação popular do latim “petra” que significa “pedra”. Um dos primeiros milagres atribuídos a S. Bento foi a cura de um mal terrível na pele de um jovem (pele branca cheia de rugosidades, “alturas”). Essas “alturas” (cravos) eram como que pedras na pele. Assim, prometia-se a S. Bento “pintar de branco as pedras se as pedras me saírem”.

Figura carismática da Igreja, torna-se um santo bem popular a que o povo muitas vezes se refere familiarmente tratando-se por “meu S. Bentinho” e a quem se oferece tudo branco: Arroz, farinha, ovos, sal, moedas brancas e cravos brancos, para além das figuras de cera.

Voltando à descrição da igreja, os dois novos altares que foram acrescentados em 1935, são altares da Nª Sª de Fátima e do Sagrado Coração de Jesus.

São altares mais modernos e modestos na sua decoração. Mas integram-se na estética geral da igreja. O altar do Sagrado Coração de Jesus faz parceria com o de Nª Sª de Fátima; as outras imagens são S. Vicente e Santa Rita.

No altar da Nª Sª de Fátima aparece no nicho central a imagem da Virgem. Lateralmente S. José e Santa Teresinha. Todo o altar é povoado de pequenas cabeças de anjos. À imagem de Nª Sª de Fátima pertence uma preciosa coroa de ouro que foi oferecida pela freguesia em 1953, como diz o Pároco, António Augusto da Costa Leite, em “Recordando o Passado”. Esta bela obra de ourivesaria foi executada gratuitamente na oficina do Sr. Manuel Armando Gaudêncio, em Rio Tinto. O ouro foi, quase na totalidade, oferecido em promessas, à Virgem de Fátima.

A festa da coroação teve lugar em 19 de Julho de 1953. Só em ocasiões especiais a imagem ostenta a coroa.

Sobre o tapa vento da entrada principal, corre o coro alto, com balaustres de madeira, com colunas torsas, com friso de granito. Tem um órgão.

Nas obras de remodelação da Igreja foram adaptadas partes dos antigos confessionários, a dois nichos, onde se vê; do lado do Evangelho, próximo da porta de entrada uma imagem do Menino Jesus, do outro lado, a bela imagem de Santa Ana é vulgarmente, designada (erradamente) por imagem S. Joaquim e Santa Ana.

Uma das maiores alterações operadas na Igreja diz respeito ao Baptistério. Na pequena capela rasgou-se a parede da entrada, fez-se um falso portão em ferro forjado, que avançou um pouco, em direção à porta lateral da fachada principal, dando maior amplidão ao espaço.

Esta entrada simbólica para os novos membros da Igreja não tapa a visibilidade de todo o conjunto. Na parede ao fundo uma tela de autor desconhecido, representa São João a batizar Cristo. Por baixo, uma mesa de altar. Ao centro do batistério, a pia batismal de granito, em forma de grande cálice. Esta pia batismal foi recuperada e deve ter pertencido à igreja primitiva.

Numa das colunas que suportam este gradeamento está uma concha de mármore rosa para a água benta.

No lado oposto ao batisfério, numa grande vitrina podemos contemplar a imagem de Nossa Senhora da Soledade (imagem muito venerada que acompanha o andor do Senhor Morto na procissão de Sexta-feira Santa).

As obras com a construção da cripta, provocaram alterações na igreja, que de um modo geral, conferiram maior conforto e funcionalidade às diversas dependências do templo (Igreja, Sacristia, Salões). Esteticamente, muitas foram as objecções a este projeto que permite desde já evidenciar as inúmeras infiltrações que a cripta apresenta.

 

igreja rio tintoNos dias de hoje já não possui esta extensa escadaria que foi sendo reduzida limitando-se hoje a dois lanços de escada com uma configuração distinta.

 

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