Os Moinhos

Tendo sido Rio Tinto uma freguesia – nunca é demais repeti-lo – atravessado por um rio, natural é que ao longo do seu leito fossem surgindo construções que, aproveitando a força da água  -energia hidráulica-  moíam os cereais, em épocas em que as fábricas de moagem ainda não existiam.

Se as «Memórias Paroquiais» de 1758 referem a existência de 45 moinhos, já em 1935 apenas se citam 8, assim localizados: Campainha (1), Lourinhã (1), Ameal (1), Mosteiro (1), Ranha (2), Ponte (2) – in «Monografia de Gondomar».

No início do século XIX, as águas do rio Tinto eram tão disputadas que moleiros e lavradores litigaram em tribunal. Esta freguesia tinha, em 1758, 45 moinhos que moíam somente até ao S. João, isto para um total de cerca de 2500 pessoas.

Hoje restam mais recordações do que moinhos. Aqueles tempos eram de necessidade generalizada mas, ainda hoje, trazem boas recordações a muita gente, e também alguma angústia por verem tão importante património delapidado, muitas vezes por aquelas instituições que deveriam ser as primeiras a preserva-lo como memória de um passado colectivo e em prol de um verdadeiro desenvolvimento.

O moinho da Victória era o mais imponente. Dum modo geral consistiam em edifícios pequenos, típicos e enquadrados em lindos trechos da paisagem ribeirinha, muitos de acesso difícil e em lugares ermos.

Para além deste e do da Leonor, conhecido por este nome por a mulher do moleiro assim se chamar, e do qual resta apenas uma parede um pouco acima do mercado e que foi destruído aquando das obras de desvio do leito natural do rio.

Um pouco mais a jusante, do da Vitória, junto a uma ponte sobre o rio e cujo edifício faz parte de um aglomerado de casas muito antigas e degradadas, agora também desocupadas, existe ainda um, que o facto de a mata ter impedido o acesso a este, ainda se encontra preservado.

A seguir a este existia o do Cú-Torto, – lugar do rio assim denominado junto à Ponte de Rio Tinto – e ainda o moinho conhecido pelo Zé do Talho (S. Caetano), que se situava mais ou menos onde hoje existe um café na esquina da Rua do Meiral.

No Caneiro havia vários, onde inclusivamente existe uma Rua cuja designação é precisamente Rua dos Moinhos. Em Pego Negro e Tirares ainda existem, tal como os anteriormente referenciados com excepção do Zé do Talho que desapareceu, os seus restos ou ruínas quase totais.

O trabalho fazia-se essencialmente de noite pois a farinha aí moída era comercializada de dia para o fabrico de broa de milho ou para ser usada para fazer papas com couves, ou em alguns lares papas com leite e açúcar.

Para os bebés usava-se “farinha das fontes”, que era aquela que ficava nas bordas das mós, por ser mais fina que a outra.

Dos Moinhos da Ranha, ainda em funcionamento a alguns anos atrás , demonstrados por inúteis, não sabemos qual o destino dado às suas pedras. Um deles foi destruido uns tempos antes antecipando o traçado do Metro e um outro nas traseiras da EB23 de Rio Tinto nº2 também aquando da construção da linha do Metro. Este último nem se percebe bem porquê já que o local onde estava edificado não foi propriamente ocupado com as obras(!). Um outro – o moinho da Levada – protegido por um amontoado de silvas, ainda funciona, apesar de não estar em elaboração.. Situado no caminho da Levada, é pertença do Sr. Viera de Vila Cova. Nele trabalhou anos e anos a fio a moleira, D. Maria Marques de Sousa, que ainda em 1993/94 recordava  os tempos em que o moinho laborava dia e noite , produzindo no decurso de um dia e uma noite cerca de 60 Kg de farinha.

Os tempos mudaram – a D. Maria ainda moeu pequenas quantidades de grau, a pedido de particulares. Em 1994, já só para uso doméstico ou com intenções pedagógicas o punha a trabalhar, como fez então com os alunos da Escola EB 2 de Rio Tinto.

Será que este resistente, um dos últimos, senão o último, já que instato mas com os dias contados, existe um outro situado nas traseiras do espaço que foi o mercado/feira de Rio Tinto que aproveitava as águas  da Ribeira da Castanheira – onde se previa a  construção de um Forúm , mas agora se prevêm  quatro torres para habitação(!) – do outro lado da linha férrea,  aonde vão construir precisamente uma nova passagem inferior de acesso ao parque Nascente,  ( e o raio do túnel tinha logo que ser ali) vai ter o mesmo destino dos restantes ou a intervenção/ aquisição pela Autarquia vai permitir, á semelhança do que acontece noutros concelhos se mantenha a Historia viva, ao serviço dos mais jovens?

No seu posto, reparado e em funcionamento, será um belo núcleo museológico, recordando uma das profissões extintas da nossa terra.

Já agora aproveitem-se as pedras deste que acabamos de falar e reconstruam-no junto ao rio Tinto, fazendo dele testemunho de um passado e instrumento pedagógico para as novas gerações.

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