Guedes de Oliveira

Jornalista, escritor dramático, director da Escola de Belas – Artes do Porto, arquitecto, republicano. Era condecorado com comenda da Ordem de Santiago. De todos os topónimos, talvez seja este aquele que perpetua a pessoa mais importante vem desenvolvida na Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira. Nasceu no lugar de Ingilde, freguesia de Campelo, conselho de Baião. Tivemos a oportunidade de conversar com Maria Amelia Guedes de Oliveira Martins, neta do nosso biografado. É a actual proprietária da casa da Levada que foi de seu avô e, após a morte deste, de sua filha Elisa. Recebeu juntamente com seus filhos Paulo e Pedro Valente e com sua irmã Margarida, nessa moradia, actualmente em obras (1996)
Segundo Maria Alméria (que é natural de Rio Tinto e nasceu a 3 de Julho de 1928), o avô dizia ter nascido em Baião “por acidente de trabalho”. Juntamente com a sua irmã Margarida (nascida em 24.05 de 1924) contaram-nos uma linda história de amor.
O pai do escritor, António de Oliveira, apaixonou-se por uma rapariga de condição económica mais favorecida e não os deixaram unir-se. Ela chamava-se Carolina Amélia Guedes Mancilha e Vasconcelos. Ele veio trabalhar para o porto, porque a grande cidade oferecia outras oportunidades. Carolina acabou por vir também para o Porto, para a casa duma tia e madrinha, que interferiu a favor desse casamento. Foi da casa da madrinha que saiu para a igreja contra a vontade paterna.
Mas veio a quadra do Natal, o espírito de boa vontade. As saudades dos pais fizeram com que convidassem a filha do genro a consoar com eles. Foram. Mas ela, como estava grávida (Guedes de Oliveira nasceu em Janeiro), ficou por lá para acabar o enxoval, enquanto o marido regressou ao Porto. E foi assim que o nosso biografado nasceu em Baião.
As netas de Guedes de Oliveira contaram-nos que sou avô, por sua vez, também se apaixonou por uma moça de favorecida condição económica. Ela pertencia à família dos herdeiros da torre de Marca. Chamava-se Margarida da Conceição Correia. Como ele era jornalista, fotógrafo era visto como uma profissão menor, então tirou o curso de arquitecto para mostrar á família dela que, se antes não tirara um curso, foi porque não quis nem lhe fora preciso. Curiosamente, foi o jornalismo que o tornou conhecido a nível nacional e não a arquitectura.
Como jornalista – Começou primeiro como leitor de notícias dos seus companheiros de oficina, segundo Elisa:

«Estava-se numa época de acirrado socialismo. Jornais e folhas volantes não faltavam numa propaganda febril. Essas folhas, trazidas para a oficina, não conseguiam aqueles homens saber o que diziam. Chamavam então o Henriquinho, diminutivo carinhoso com o que tratavam o sobrinho do patrão e, nas escassas horas do jantar, ao meio-dia, engolida à pressa a refeição, pediam ao menino que lhes lesse esses jornais e impressos. E assim bem cedo começou entrando em assustos sérios (…) Em seguida à leitura que se tornou o seu passatempo favorito, deu-se a improvisar teatrinhos, a fazer jornais»
«Desde os doze aos treze anos colaborou em jornais, fazendo as suas primeiras tentativas em folhas humorísticas e jornais operários, como a Rebeca do Diabo, de Lisboa, e na Voz do Operário e protesto, da mesma cidade, e em O Operário, do Porto, e em outras. Aos 15 anos era nomeado correspondente, no Porto, do velho jornal O Bejense, que representou nas grandes festas do tricentenário de Camões. Pouco depois publicava o seu primeiro livro de versos, com o título: Cáusticos, a que se seguiram vários panfletos, também em verso: Vendilhões do Templo, Os Cafres, e outros. Mais tarde redigiu, com Dionísio Ferreira dos Santos Silva, o jornal humorístico Zé Povinho, e com Alberto Bessa o Tam-Tam. Colaborou largamente na discussão, Folha Nova, República e no Defensor do Povo, de Coimbra. Depois da saída de João Chagas do jornal Republica, foi elemento da coordenação, para se fundar o jornal República Portuguesa, de muito tempo um dos principais colaboradores da Paródia, de Rafael Bordalo Pinheiro, com versos humorísticos, com vários títulos, entre os quais O Porto na Paródia, ou A Paródia no Porto. Essas crónicas, em verso, foram acompanhadas de caricaturas do artista portuense Monterroso, de Rafael Bordalo, Manuel Gustavo e Jorge Cid. Guedes de Oliveira assinava esses versos com o pseudónimo de Tito Litho, que também usou em outros jornais humorísticos»
Durante muitos anos, pertenceu aos corpos gerentes da Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto. Representou essa coletividade em muitos congressos realizados em diferentes países.
Mas Guedes Oliveira é sobretudo associado ao jornal O primeiro de Janeiro, tendo sido seu colaborador e redator durante 34 anos.
Nesse jornal manteve várias rubricas, anonimas umas, como Calendário Histórico e Tauromaquia Alegre, outras assinadas como Tribuna livre… As cartas do estrangeiro sob o título “Longe da Gare” foram por ele enviadas de Paris aquando da Exposição de 1900 a que se assistiu como representante de O PRIMEIRO DE JANEIRO.
Mas Guedes de Oliveira tinha outro lado – o de conhecer a força da imprensa e sabia usa-la. Pelo que conhecemos dele, estamos mais de acordo com a opinião das netas: «Como jornalista era cáustico» – afirma Margarida.
E Maria Amélia relembra a sorrir, por sua vez: «Quando se batia por uma causa, que achasse justa, ia até ao fim. Vencia sempre»
Como autor dramático – «Escreveu muito para o Teatro, onde obteve verdadeiros triunfos, como na sua primeira revista, Por dentro e por fora, a que surgiram outras, como O Cosmorama e Na Corda Bamba, colaborando nesta com um quadro, o escritor Jaime Filinto- continuamos a ler na Grande Enciclopédia. – Mas nesse género de teatro, o seu maior êxito foi a revista Ali… à preta! Com música de Ciríaco de Cardoso, peça que se representou durante cinco anos, em Lisboa, Porto, e em todas as províncias de Portugal e Estados do Brasil, contando com muitas centenas de representações. Também escreveu e acomodou várias operetas, obtendo grande sucesso as intituladas Licor de Ouro, com música de Manuel Benjamim, e Capitão Metralha, musicada por Ciríaco de Cardoso. Subordinada à música da célebre revista madrilena Gran-Via, escreveu uma peça com o título Vida Airada, que se representava na noite em que se deu o terrível incêndio do Teatro Boquet, no Porto. Foi também autor de grande número de a-propósitos, cançonetas e monólogos, e escreveu em três noites, para uma récita da Associação dos Jornalistas e Homens de letras do Porto, a peça em 3 atos, em verso, Fabiana, arranjada e a pedido, sobre a célebre Fábia, de Francisco Palha»
Como fotógrafo – As pessoas da localidade, quando se fala deste conterrâneo, referem que ele fundou a “ Fotografia Guedes”, no Porto. Nessa citada Enciclopédia, acrescenta-se que «foi o primeiro a realizar no Porto fotografias de arte e especialidades, como miniaturas, esmaltes, etc. obtendo vários prémios em exposições nacionais e estrangeiros, a que concorreu»
Como artista -» Já com nome feito, frequentou co distinção a Escola de Belas-Artes do Porto, da qual depois foi professor e diretor , devendo-lhe o movimento artístico assinalados serviços, já iniciados nas exposições que desde 1897 organizou. Fez parte da comissão de estética da Câmara Municipal do Porto» – Enciclopédia citada.
Joaquim Marinho, no artigo referido, diz que o nosso primeiro cinbiasta, Aurélio Paz dos Reis, enviou ao amigo Guedes de Oliveira uma carta de felicitações, para a Vila Margarida, em Rio Tinto, «pela sua nomeação para Diretor da Escola de Belas-Artes do Porto, referindo que bem merecia só pecando por tardia»
Como escritor – Para além da sua actividade literária desenvolvida no teatro da imprensa, Guedes de Oliveira publicou dois livros – Tauromaquia Alegre e jornal dum Espetador. São uma coltânea de crónica antes publicara em O Primeiro de Janeiro.
Relação com Rio Tinto – Perguntamos à família Guedes de Oliveira o que motivara a vinda do escritor para Rio Tinto.
Disseram que, em 1899, houve uma peste no Porto. Guedes de Oliveira, com receio pelos filhos, decidiu procurar uma casa fora da cidade.Diz-nos a beta Maria Amélia, citando de memória a sua rial Elisa:
Ele tinha de arranjar um lugar onde a família pudesse ficar isolada, mas ao mesmo tempo pudesse ir e vir todos os dias. Comprou esta casa porque gostou muito do sítio e do “ ar balsâmico dos campos”, como ele dizia»

One thought on “Guedes de Oliveira

  1. Excelente crónica biográfica.
    Vi uma excelente exposição fotográfica dele no Parque Nascente e na antiga Cadeia da Relação, a primeira com o apoio da Junta de Rio Tinto.
    Consegui adquirir num alfarrabista, com dedicatória do Autor, o livro Tauromaquia Alegre.
    Na Biblioteca Municipal de Gondomar não se encontra nemhuma obra literária dele – o que aliás é habitual em relação a outros autores que nasceram ou viveram em Gondomar.

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