Camilo de Oliveira (28.03.1874 – 14.08.1946)

Autor da Monografia de Gondomar, republicano, ex-padre, professor, jornalista, literato, bibliotecário.

Seu nome completo Camilo Martins de Oliveira, está ligado a Rio Tinto sobretudo pela sua obra. Dirigiu também algum tempo um jornal local. É a única figura representada na freguesia por um busto, no qual se falará adiante.

Os dados biográficos desta personalidade foram-nos fornecidos por um dos seus filhos, por escrito e por entrevista presencial. O filho que contatamos é o conhecido Doutor Camilo Cimourdain de Oliveira, professor catedrático jubilado da faculdade de economia da universidade do Porto. Actualmente (1996) é Director do Departamento de Gestão de Empresas e vice-reitor da Universidade Portucalense. Camilo Cimourdain é o filho mais velho e nasceu em 1912, quando o seu pai contava 38 anos. Formado em economia, também esteve ligado a Rio Tinto, tendo sido consultor económico, durante muitos anos, da Mondex. Foi no tempo de fundador, Fernando Miguel Rodrigues Júnior, e esclareceu-nos que se chama Fábrica de Malhas Mondego ( Mondex ) em homenagem a Coimbra, por ele ser desses lados.

Camilo Martins de Oliveira nasceu em S. Cosme de Gondomar, na Casa da Passagem de Cima. Era filho de José Martins de Oliveira e de Teresa Pereira das Neves, lavradores abastados. «O casal teve 14 filhos, dos quais apenas dez atingiram idades  adultas: 4 rapazes e 6 meninas»- lemos no manuscrito do Prof. Cimourdain de Oliveira.

Em Gondomar tem dezenas de parentes pelo lado paterno. Da parte da mãe, só tinha como familiar uma irmã dela, viúva.

Após a instrução primária, Camilo de Oliveira quis continuar a estudar. Mas seu pai, como muitos lavradores de outrora, mesmo deste século, deu-lhe duas hipóteses: “Ou padre ou lavrador”.

Hesitou. Ele não queria uma coisa nem outra. Foi-se deixando ficar pelo campo, a apascentar o gado, até que um dia correu para casa com uma decisão tomada – preferia estudar a ser lavrador.

Os outros irmãos não estudaram. Ele, para o fazer, teve de entrar no Seminário dos Carvalhos, apenas saindo quando concluiu o Curso Teológico. Exerceu o sacerdócio, mas, em 1907, “encontrámos-lo” em Avintes a proferir um discurso contra a Monarquia.

Republicano e padre eram atitudes que não casavam, na época. Deve ter sido bem difícil passar de sacerdote, educado dentro de conceitos e práticas religiosas, a um convicto anticlerical. Abandonou então o sacerdócio e dedicou-se ao ensino livre. Começou por lecionar no Colégio de S. Carlos, no Porto, que ficava na rua Fernandes Tomás.

Segundo um manuscrito redigido pelo seu filho,

«Então, já com certa independência económica, casa com D. Emília Ferreira de Oliveira, de quem teve cinco filhos. O primeiro, uma menina, faleceu com cerca de três anos estando ainda hoje (1996) vivos os outros quatro. Sua mulher era e foi sempre católica e – escreve Sousa Aguiar – “em sua casa tinha ela um oratório, com lamparina de azeite acesa noite e dia” – atitude que seu marido sempre inteiramente respeitou».

«Já casado, foi professor nas então chamadas Escolas Móveis, tendo depois ingressado no corpo docente da Escola Primária Superior de António Nobre, do Porto. Pouco tempo depois, é nomeado professor tirocinante da Escola Comercial de Oliveira Martins, também do Porto (1919), passando a professor efetivo três anos depois (1922)».

Lecionava Português, Francês, História e Geografia.

Essa Escola funcionava, na altura, numa dependência do Palácio da Bolsa. Posteriormente passou para a rua das Taipas (onde funcionou mais tarde a Faculdade de Psicologia) e transitou ainda para a rua do Sol. «E foi nestas instalações que, em 1944, o limite de idade o vem de atingir».

Neste dia, foi-lhe prestada uma homenagem por todo o corpo docente e funcionários da Escola, a qual foi divulgada pela imprensa diária. Dos discursos publicados no jornal O Comércio do Porto, no dia seguinte, retirámos um extrato do proferido pelo prof. Rodrigo Fontinha, que diz que o Prof. Camilo de Oliveira se retira com a amizade de todos os colegas e com a simpatia de todos os alunos. E, referindo-se à voz da sua consciência, continuou:

«Podes sair daqui com a cabeça levantada, porque não usaste jamais de subterfúgios, nem de fraudes, nem de subornos, no desempenho das tuas pesadas obrigações; porque foste  um mestre competente e um juiz incorrupto; porque nunca deixaste de ser um camarada honesto e lhano; porque foste amigo dos teus alunos, procurando sempre com digno esforço incutir-lhes no espíritos em botão a semente do saber».

Mas nesse dia Camilo de Oliveira já tinha sido homenageado, horas antes, desta vez por ter sido bibliotecário da Biblioteca Municipal do Porto. «Foram dezoito anos a trabalhar onze horas por dia, seis na Biblioteca e cinco na Escola…» Camilo tinha a seu cargo o sustento de sete bocas – o casal, quatro filhos e a cunhada viúva. E aos filhos deu uma brilhante educação.

A homenagem feita na Biblioteca também foi publicada, onde os seus companheiros de trabalho referem a fraterna camaradagem. «Como recordação daquela cerimónia, foi-lhe entregue um exemplar duma das suas obras de investigação erudita, preciosamente encadernado e assinado por todos os que com ele ali trabalhavam».

Atividade Literária – «Como jornalista – atividade desenvolvida principalmente durante o primeiro quartel do século – colaborou na imprensa nortenha, nos jornais “A Aurora de Gondomar” e “A Nossa Terra”, no jornal “A verdade”, do Porto, no “Cinco de Outubro”, de Vila nova de Gaia, em “Ourivesaria Portuguesa”, em “O Tripeiro”, fez parte da recordação do jornal “O Norte” e foi diretor do semanário “A Republica Portuguesa”».

Nós fornecemos ao Prof. Cimourdain de oliveira ainda mais outro: “O Combate”, em 1911, jornal de Rio Tinto.

Como escritor publicou:

– Uma Cilada Desfeita (1906)

– O Padre e a Republica (1912)

– O Direito Divino (1923)

– Noção de Gramática Portuguesa – Livraria Escolar Progredior (Porto) – obra que teve 5 edições entre 1928 e 1935.

– Origem e Progresso da Escola Comercial de Oliveira Martins (Porto, Imprensa Moderna, 1942).

Mas foi sobretudo a nossa bem conhecida obra, O Concelho de Gondomar – Apontamentos Monográficas (1932/38) que neste trabalho tanto citamos como “Monografia de Gondomar”, em quatro volumes, que lhe deu sucesso. Segundo o Prof. Cimourdain de Oliveira,

«foi elaborada total e exclusivamente a expensas suas ao longo de doze anos de labor intenso, que lhe conferiu dimensão literária nacional, pois constituiu uma obra de natureza etnográfica ímpar no género, graças à extensão e rigor cientifico na recolha dos dados, beleza do estilo e à perfeição gramatical e literária com que está redigida e à grande sensibilidade que revela no amor e ao património, à terra e ao povo».

4 thoughts on “Camilo de Oliveira (28.03.1874 – 14.08.1946)

  1. O professor Camilo, era neto paterno de Vitorino Martins Oliveira, nascido a 06-11-1804, no lugar de Rio Carreiro, freguesia de São Cosme, e casou em 15-07-1838, com Maria de Castro.

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