Quinta de Chão-Verde

É a casa típica de um “brasileiro”, descrito caricatural e picarescamente por Camilo em “A Corja”:

“Chegava a caleche descoberta dum brasileiro purpurino, coruscante de cores arreliosas, oftálmicas, delirantes, duma garridice espaventosa. Era o Arara (a quem outros chamavam O Lâmpada), um triunfador daqueles tempos em que a casaca azul e o colete amarelo não dispensavam uma gravata vermelha, luvas verdes, e calças cor de alecrim com polainas cinzentas” (adaptado)

O nosso Arara/Lâmpada, aliás António Lourenço Correia, era natural do lugar do Outeiro, em Fânzeres, onde nasceu em 1828. Emigrou para o Brasil, onde teve rápido sucesso nos negócios, e de onde regressou com cerca de 35 anos (em 1864 deu inicio à construção da Casa e Quinta de Chão-Verde).

Sorteiro e sem filhos, António Lourenço Correia manda edificar uma casa grande (o célebre palacete dos “brasileiros”), bem face à estrada (para que se pudesse constatar sem qualquer espécie de dúvida o seu novo estatuto socioeconómico, de capitalista bem sucedido).

É de notar que em documentos por nós compulsados se refere sistematicamente a “profissão” capitalista.

Se recordarmos a citada descrição de Júlio Dinis, em Uma Família Inglesa, nesta Quinta não faltam:

  • “O portal largo” – são vários os portões de acesso;
  • “As paredes de azulejos multicolores, lisos” (vêem-se, ladeando a entrada, figuras de soldados – das lutas liberais? – figuras mitológicas, nas “Casas de ar”, dispersas na quinta, para além de azulejos com motivos geométricos, em vários espaços – ou relevo, revestindo a frontaria da casa ;
  • “Jardins adornados de estatuetas de louça, representando as quatro estações…”, com inúmeras fontes/lagos e repuxos…
  • Portões e varandas de ferro com o nome do proprietário e a era da edificação. Nesta quinta, além da data de fundação, aparece pelo menos mais uma data – 1869 – numa parede de antiga “cocheira” (neste, como em muitos outros espaços, as conchas são usadas com profusão, combinadas com azulejos polícromos e medalhões…)
  • Casa com janelas góticas e portas retangulares – nesta, verifica-se a existência de formas muito diversificadas, onde as vidraças multicolores reforçam a “garradice” do gosto proprietário;
  • Mirante…

Citando o Arquiteto Miguel Sá, um dos atuais proprietários, “constata-se a presença feliz de um arquiteto na organização do jardim e na sua articulação com a casa”, de que resulta a aplicação de “um modelo de jardim francês, geométrico, estruturado segundo dois eixos, sabiamente inseridos num terreno ingrato de perímetro muito irregular, aliás muito bem disfarçado e enriquecido com várias soluções arquitetónicas de remate”. Destaca-se o “esforço conseguido de criar espaços muito diversificados num recinto muito pequeno, nomeadamente através da criação de cotas diferentes no jardim, e a preocupação de esconder o limite de um espaço reduzido, quer através de sequências de quedas de água, que pontuam e prolongam as distâncias, quer através da criação de zonas de sombra, mais escuras, que dificultam o términus de leitura dos limites impostos pelos muros exteriores”.

Requintes não habituais para a época, tais como casa-de-banho completa, com banheira, atestam o desafogo económico e uma certa preocupação com o conforto.
Quando faleceu (em 31 de Outubro de 1897), com 51 anos, O Comércio do Porto noticiou o falecimento do «abastado e conhecido capitalista, que por muitos anos havia residido no Brasil, onde exercera a profissão comercial».
Como não tinha filhos, o sobrinho, filho de sua irmã Maria Martins Vieira de nome, de nome David Carreira da Silva, herdou a propriedade, à morte deste, recebeu-a sua filha, Rita Correia da Silva e Sá (nome que lhe vem do casamento, em 1915, com Domingos Gonçalves de Sá Júnior, natural do Porto).
Felizmente, a casa está (1996) em fase de franca recuperação, garantindo-se assim a preservação de um património marcante de uma época e sua memória…

2 thoughts on “Quinta de Chão-Verde

  1. Felicito-vos pela qualidade estética e informativa do vosso blogue. Gostava de visitar a Quinta mas não sei como contactar os seus proprietários. A visita seria também destinada a registar imagens dos estuques (se os tiver) do interior pra efeitos de um Inventário dos estuques decorativos do Norte do País.
    Agradecendo desde já e com os melhores cumprimentos
    Antero Leite
    A.C.E.R.-Associação Cultural e de Estudos Regionais
    Email: acer.geral@gmail.com
    Net: http://www.acerweb.pt

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s